segunda-feira, 11 de julho de 2011

CANÇÃO DE MIM MESMO

"Não pertenço a igreja nenhuma, não pertenço a partido político nenhum, não pertenço a associação literária nenhuma, não sou maçon, enfim, eu sempre quis viver individualmente". Com a devida vênia, faço minha as palavras daquele que para mim é o maior poeta brasileiro vivo, Nauro Machado.

Dialogando com minha individualidade, evoco, à guisa de um velho xamã no seio da mata escura, os versos revolucionários do poeta norte-americano Walt Whitman (31/05/1819 - 26/03/1892), contidos no seu único e interminável livro - Folhas de relva.

Dono de versos caudalosos onde celebra a vida, o amor, o sexo e os elementos da existência cotidiana, Whitman implodiu a poesia clássica baseada na métrica e no jogo de rimas, introduzindo o verso livre e dando nova dimensão à produção poética, a qual serviu de inspiração para todas as gerações de escritores que vieram depois dele.

Canção de mim mesmo (fragmentos) - o mais famoso poema de Walt Whitman.


CANÇÃO DE MIM MESMO
(excertos)


EU CELEBRO a mim mesmo,
    E o que eu assumo você vai assumir,
    Pois cada átomo que pertence a mim pertence a
                                        [ você.

    Vadio e convido minha alma,
    Me deito e vadio à vontade .... observando uma
                                [ lâmina de grama do verão.

    Casas e quartos se enchem de perfumes .... as
            [ estantes estão entulhadas de perfumes,
    Respiro o aroma eu mesmo, e gosto e o
            [ reconheço,
    Sua destilação poderia me intoxicar também,
            [ mas não deixo.

    A atmosfera não é nenhum perfume .... não tem
            [ gosto de destilação .... é inodoro,
    É pra minha boca apenas e pra sempre .... estou
            [ apaixonado por ela,
    Vou até a margem junto à mata sem disfarces e
            [ pelado,
    Louco pra que ela faça contato comigo.

    A fumaça de minha própria respiração,
    Ecos, ondulações, zunzuns e sussurros .... raiz
    [ de amaranto, fio de seda, forquilha e videira,
    Minha respiração minha inspiração .... a batida
        [ do meu coração .... passagem de sangue e
        [ ar por meus pulmões,
    O aroma das folhas verdes e das folhas secas,
        [ da praia e das rochas marinhas de cores
        [ escuras, e do feno na tulha,
    O som das palavras bafejadas por minha voz ....
        [ palavras disparadas nos redemoinhos do
        [ vento,
    Uns beijos de leve .... alguns agarros .... o
        [ afago dos braços,
    Jogo de luz e sombra nas árvores enquanto
        [ oscilam seus galhos sutis,
    Delícia de estar só ou no agito das ruas, ou pelos
        [ campos e encostas de colina,
    Sensação de bem-estar .... apito do meio-dia
        [ .... a canção de mim mesmo se erguendo
        [ da cama e cruzando com o sol.


    Uma criança disse, O que é a relva? trazendo um
         [ tufo em suas mãos;
    O que dizer a ela ?.... sei tanto quanto ela o que
         [ é a relva.

    Vai ver é a bandeira do meu estado de espírito,
      [ tecida de uma substância de esperança verde.
    Vai ver é o lenço do Senhor,
    Um presente perfumado e o lembrete derrubado
      [ por querer,
    Com o nome do dono bordado num canto, pra que possamos ver e examinar, e dizer
          É seu ?
    

    O blablablá das ruas .... rodas de carros e o
         [ baque das botas e papos dos pedestres,
    O ônibus pesado, o cobrador de polegar
         [ interrogativo, o tinir das ferraduras dos
         [ cavalos no chão de granito.
    O carnaval de trenós, o retinir de piadas
         [ berradas e guerras de bolas de neve ;
    Os gritos de urra aos preferidos do povo ....
         [ o tumulto da multidão furiosa,
    O ruflar das cortinas da liteira — dentro um
         [ doente a caminho do hospital,
    O confronto de inimigos, súbito insulto,
         [ socos e quedas,
    A multidão excitada — o policial e sua estrela
         [ apressado forçando passagem até o centro
         [ da multidão;
    As pedras impassíveis levando e devolvendo
         [ tantos ecos,
    As almas se movendo .... será que são invisíveis
         [ enquanto o mínimo átomo é visível ?
    Que gemidos de glutões ou famintos que
         [ esmorecem e desmaiam de insolação
         [ ou de surtos,
    Que gritos de grávidas pegas de surpresa,
         [ correndo pra casa pra parir,
    Que fala sepulta e viva vibra sempre aqui....
         [ quantos uivos reprimidos pelo decoro, Prisões de criminosos, truques, propostas
         [ indecentes, consentimentos, rejeições de
         [ lábios convexos,
    Estou atento a tudo e as suas ressonâncias ....
         [ estou sempre chegando.


    Sou o poeta do corpo,
    E sou o poeta da alma.

    Os prazeres do céu estão comigo, os pesares do
         [ inferno estão comigo,
    Aqueles, enxerto e faço crescer em mim mesmo
         [ .... estes, traduzo numa nova língua.

    Sou o poeta da mulher tanto quanto do homem,
    E digo que é tão bom ser mulher quanto ser
         [ homem,
    E digo que não há nada maior que a mãe dos
         [ homens.

    
    Vadio uma jornada perpétua,
    Meus sinais são uma capa de chuva e sapatos
          [ confortáveis e um cajado arrancado
          [ do mato ;
    Nenhum amigo fica confortável em minha
          [ cadeira,
    Não tenho cátedra, igreja, nem filosofia;
    Não conduzo ninguém à mesa de jantar ou à
          [ biblioteca ou à bolsa de valores,
    Mas conduzo a uma colina cada homem e mulher
          [ entre vocês,
    Minha mão esquerda enlaça sua cintura,
    Minha mão direita aponta paisagens de
          [ continentes, e a estrada pública.

    Nem eu nem ninguém vai percorrer essa estrada
          [ pra você,
    Você tem que percorrê-la sozinho.

    Não é tão longe assim .... está ao seu alcance,
    Talvez você tenha andado nela a vida toda e não
          [ sabia,
    Talvez a estrada esteja em toda parte sobre a
          [ água e sobre a terra.

    Pegue sua bagagem, eu pego a minha, vamos em
          [ frente;
    Toparemos com cidades maravilhosas e nações
          [ livres no caminho.

    Se você se cansar, entrega os fardos, descansa a
          [ mão macia em meu quadril,
    E quando for a hora você fará o mesmo por mim;
    Pois depois de partir não vamos mais parar.

3 comentários:

Gabriela Gomes disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Gabriela Gomes disse...

Amo muito essa poesia, a minha favorita

Clarice Agra Fiúza disse...

Amoooooo