terça-feira, 28 de junho de 2011

O aniversário do Raulzito

Se estivesse vivo, Raul completaria 66 anos hoje


Fui surpreendido há pouco com a notícia do aniversário do eterno Raul Seixas. Sem palavras. Sou fã incondicional e, para o bem ou para o mal, posso dizer que Raulzito influenciou muito na formação da minha personalidade. Que você esteja em paz, caro Raul!

Obs.: Sobre ele falei aqui, tempos atrás

O adeus a Raul Seixas
 

Encontro marcado

Ano de 1914. Nos arredores do centro de Zurique, Suíça, uma pequena cafeteria servia de abrigo para aqueles que fugiam dos primeiros ventos do inverno. Sentado junto a uma janela, por onde se via o movimento dos transeuntes em meio ao trânsito cada vez mais tumultuado, um jovem homem detém-se na leitura do jornal enquanto degusta uma xícara de chá. Tinha a pele pálida, os olhos fundos protegidos por duas grossas lentes e o lábio superior envolvido por um bigode de espessura mediana.

Não demorou para que o local fosse invadido por um grupo de homens. Pelo sotaque, o homem de bigode concluiu que eram russos. Chamou-lhe a atenção a figura daquele que parecia ser o líder deles. Sua fisionomia peculiar denunciava certos traços orientais. A pele levemente avermelhada e os olhos um pouco puxados. Provavelmente descendia do povo mongol. Sentaram-se a uma mesa situada no lado oposto da cafeteria e logo pediram várias xícaras de café e croissants, enquanto conversavam rapidamente em russo, certamente temendo que alguém decodificasse o assunto de que tratavam.

O homem de bigode e de óculos estava prestes a sair quando teve a impressão de avistar alguém conhecido. Deteve-se na fisionomia de um homem que naquele instante dirigia-se ao balcão para fazer um pedido. Não sabia de onde o conhecia. Usava um sobretudo negro e carregava consigo vários livros. Talvez o tivesse visto em alguma fotografia de jornal. Recordou de certa reportagem falando sobre alguma teoria da física, química ou coisa assim. Por fim, deixou o dinheiro sob o açucareiro, acenou para o atendente e foi embora.

* * *

O encontro narrado acima provavelmente jamais tenha acontecido. De fato, em 1914, na cidade suíça de Zurique, viveram três homens que revolucionaram a história mundial, cada qual em sua área de conhecimento. O primeiro deles foi o escritor irlandês James Joyce (1882 – 1941), que deu nova dimensão à moderna literatura de língua inglesa e serviu de referência para todas as gerações de escritores que vieram depois dele. Já o segundo foi Vladimir Ilitch Lenin (1870 – 1924), um dos principais teóricos da doutrina comunista e mentor da Revolução Russa de 1917. Por fim, o terceiro homem, o físico alemão Albert Einstein (1879 – 1955), idealizador da teoria da relatividade e ganhador do prêmio Nobel de Física em 1921, após a conclusão dos estudos sobre o efeito fotoelétrico.

A seguir, o conto Eveline, de autoria de James Joyce.


Eveline 

James Joyce
Ela sentou-se à janela para ver a noite invadir a avenida. Encostou a cabeça na cortina e o odor de cretone empoeirado encheu-lhe as narinas. Sentia-se cansada.
Poucas pessoas por ali passavam. O sujeito que morava no fim da rua passou a caminho de casa; ela ouviu seus passos estalando na calçada de concreto e em seguida rangendo sobre o caminho coberto com cascalho em frente às casas vermelhas. Tempos atrás havia ali um terreno baldio onde eles brincavam toda noite com os filhos dos vizinhos. Mais tarde um indivíduo de Belfast com­prara o terreno e construíra casas — mas não eram casas pequenas e escuras como aquelas em que eles moravam; eram casas vistosas de tijolo e com telhados luzidios. As crianças que moravam na avenida costumavam reunir-se para brincar naquele terreno — crianças das famílias Devine, Water, Dunns, o pequeno Keogh, que era manco, ela e seus irmãos e irmãs. Ernest, no entanto, nunca brincava: já estava crescido. O pai dela muitas vezes enxotava-os do terreno com sua bengala de madeira preta; mas geralmente o pequeno Keogh montava guarda e dava o alarme quando avistava o homem se aproximando. Apesar de tudo consideravam-se bas­tante felizes naquela época. Seu pai ainda não estava tão mal e, além disso, a mãe ainda estava viva. Isso tudo acontecera há muito tempo; ela, seus irmãos e irmãs tinham crescido; a mãe estava morta. Tizzie Dunn também morrera e a família Water havia retornado à Inglaterra. Tudo se modifica. Agora era a vez dela ir embora, como os outros, ia sair de casa.
Casa! Correu os olhos pela sala, revendo todos os objetos conhecidos, por ela espanados uma vez por semana há tantos anos, e perguntou-se de onde vinha tanta poeira. Talvez jamais voltasse a ver aqueles objetos conhecidos dos quais jamais imagi­nou separar-se um dia. Contudo, durante todos aqueles anos ela nunca viera a saber o nome do padre cuja fotografia amarelada se encontrava pendurada na parede acima da pianola quebrada, ao lado da gravura em louvor à beata Margarida Maria Alacoque. O padre fora colega de escola do pai dela. Sempre que mostrava a foto a uma visita ele repetia mecanicamente a mesma frase:
— Ele está em Melbourne agora.
Concordado em partir, em deixar a própria casa. Teria sido uma decisão sensata? Tentou analisar cada lado da questão. Em casa ao menos tinha um teto e comida; vivia entre pessoas que conhecia desde criança. É bem verdade que o trabalho era pesado, tanto em casa quanto no emprego. O que diriam na loja quando descobrissem que ela fugira de casa com um sujeito qualquer? Que era uma idiota, talvez; e sua vaga seria preenchida através de um anúncio no jornal. Miss Gavan ficaria bem satisfeita. Sempre implicara com ela, especialmente quando havia gente em volta.
— Miss Hill, não está vendo estas senhoras esperando?
— Mexa-se, Miss Hill, por favor!
Ela não derramaria muitas lágrimas por deixar a loja.
Em seu novo lar, num país distante e desconhecido, tudo seria diferente. Estaria casada — ela, Eveline. As pessoas a tratariam com respeito. Não seria tratada como a mãe o fora. Mesmo agora, que estava com mais de dezenove anos, sentia-se às vezes amea­çada pela violência do pai. Sabia que tinha sido isso a causa daquelas palpitações. Quando eram crianças ele nunca havia batido nela, conforme batia em Harry e em Ernest, porque ela era menina; mas ultimamente passara a ameaçá-la e a dizer o que faria com ela não fosse a lembrança da mãe falecida. E agora não havia mais ninguém para protegê-la. Ernest estava morto e Harry, que trabalhava com decoração de igrejas, estava quase sempre ausen­te, viajando pelo sul do país. Além do mais, o inevitável bate-boca sobre dinheiro todo sábado à noite começava a deixá-la exausta, mais do que qualquer outra coisa. Ela sempre entregava o salário inteiro — sete shillings — e Harry sempre enviava o que podia mas o problema era conseguir arrancar dinheiro do pai. Ele dizia que ela desperdiçava dinheiro, que não tinha juízo, que não lhe daria o seu dinheiro suado para ser jogado fora, e dizia muito mais, pois geralmente ficava em péssimo estado nas noites de sábado. Contudo, acabava dando-lhe o dinheiro e perguntava-lhe se ia ou não comprar as provisões para o jantar de domingo. Então ela era obrigada a sair correndo para o mercado, segurando firme a bolsa preta de couro enquanto abria caminho na multidão com os cotovelos, e voltava para casa tarde, carregada de pacotes. Trabalhava pesado para manter a casa em ordem e garantir às duas crianças que haviam ficado sob os seus cuidados a oportunidade de freqüentar a escola devidamente alimentadas. O traba­lho era pesado — uma vida difícil — mas agora que estava prestes a deixar tudo para trás não considerava a vida que levava de todo indesejável.
Estava prestes a começar a explorar uma outra vida ao lado de Frank. Frank era um homem bom, viril, amoroso. Concordara em fugir com ele na barca noturna para tornar-se sua esposa e viver ao seu lado em Buenos Aires, onde ele possuía uma casa à espera dela. Com que nitidez se recordava da primeira vez em que o vira! Ele alugava um quarto numa casa na rua principal, que ela costu­mava freqüentar. Tudo parecia ter acontecido há apenas algumas semanas: ele parado no portão, com o boné no cocuruto da cabeça e o cabelo despenteado caído sobre a testa bronzeada. Então começaram a se conhecer melhor. Ele costumava esperá-la todas as noites à porta da loja para acompanhá-la até em casa. Levou-a para assistir The bohemian girl e ela ficou radiante por sentar-se ao lado dele num setor do teatro onde não costumava ficar. Ele adorava música e tinha uma voz razoável. As pessoas notavam que os dois estavam namorando e, sempre que ele cantava a canção sobre a jovem que amava o marinheiro, ela sentia um agradável acanhamento. Ele gostava de chamá-la de Poppens, carinhosamente. A princípio a idéia de ter um namorado não passara de uma empolgação, mas logo começou a gostar dele de verdade. Frank contara-lhe histórias de países distantes. Começa­ra a vida como taifeiro ganhando uma libra por mês a bordo de um navio da Allan Line com destino ao Canadá. Disse-lhe tam­bém os nomes de todos os navios em que viajara bem como de diversas companhias de navegação. Velejara pelo estreito de Ma­galhães e contara-lhe histórias a respeito dos terríveis habitantes da Patagônia. Estabelecera-se em Buenos Aires, dizia ele, e voltara à velha terra natal apenas para passar férias. O pai dela, obviamente, descobrira o namoro e a proibira de sequer dirigir-lhe a palavra.
— Conheço bem esses marinheiros — ele dizia.
Um dia o pai discutira com Frank e a partir de então ela fora obrigada a encontrar-se com o namorado às escondidas.
A noite aprofundava-se na avenida. O reflexo branco de duas cartas que tinha ao colo se tornava indistinto. Uma era para Harry; a outra, para o pai. Ernest era seu irmão preferido mas também gostava de Harry. O pai estava ficando velho, dava para notar; sentiria a falta dela. Às vezes, ele sabia ser agradável. Há pouco tempo, quando ficara acamada um dia inteiro, ele lera para ela um conto de terror e preparara-lhe umas torradas. Em outra ocasião, quando a mãe ainda estava viva, fizeram juntos um piquenique em Hill of Howth. Lembrava-se do pai colocando o chapéu da mulher para divertir as crianças.
Estava chegando a hora mas ela continuava sentada à janela, com a cabeça encostada na cortina, aspirando o cheiro de cretone empoeirado. Lá embaixo na avenida ouvia um realejo tocando. Conhecia a canção. Estranho que o realejo surgisse ali naquela noite, como que para lembrá-la da promessa que fizera à mãe, de preservar o lar unido enquanto pudesse. Lembrou-se da noite em que a mãe morrera; era como se estivesse novamente no quarto fechado e escuro do outro lado do hall e lá fora ouvisse a melan­cólica canção italiana. Na ocasião, deram seis pence ao tocador de realejo e pediram-lhe que fosse embora. Lembrou-se do pai vol­tando ao quarto da enferma com um andar emproado, excla­mando:
— Italianos desgraçados! O que eles querem aqui?
Enquanto divagava, a visão deplorável da vida que a mãe levara tocou-a no fundo da alma — uma vida de sacrifícios banais culminando em loucura. Estremeceu quando voltou a ouvir a voz da mãe repetindo com uma desvairada insistência:
—Derevaun Seraun! Derevaun Seraun!
Levantou-se num sobressalto de pavor. Fugir! Precisava fugir! Frank a salvaria. Daria uma vida a ela, talvez, quem sabe, até amor. E ela queria viver. Por que haveria de ser infeliz? Tinha direito à felicidade. Frank a tomaria nos braços, a abraçaria. Ele a salvaria.
. . . . . . . . . . . . . . . .
Lá estava ela no meio da multidão ondulante na estação de embarque de North Wall. Ele segurava-lhe a mão e ela sabia que estava se dirigindo a ela, repetindo alguma coisa a respeito das passagens. A estação estava repleta de soldados carregando malas marrons. Através dos largos portões do embarcadouro ela podia ver o vulto negro do navio, atracado ao longo do cais com as vigias iluminadas. Ela nada respondia. Sentia o rosto pálido e frio e, num labirinto de aflição, rezou pedindo a Deus que lhe guiasse, que lhe apontasse o caminho. O navio lançou dentro da névoa um silvo longo e triste. Se partisse, amanhã estaria no mar ao lado de Frank, navegando em direção a Buenos Aires. As passagens dos dois já estavam compradas. Seria possível voltar atrás depois de tudo o que ele fizera por ela? A aflição que sentia lhe provocava náuseas e ela continuava a mover os lábios rezando fervorosamente em silêncio.
Um sino repicou em seu coração. Deu-se conta de que ele lhe agarrara a mão:
— Vem!
Todos os mares do mundo agitavam-se dentro de seu coração. Ele a estava levando para esses mares: ele a afogaria. Agarrou-se com as duas mãos às grades de ferro.
— Vem!
Não! Não! Não! Era impossível. Suas mãos agarraram-se ao ferro em desespero. No meio dos mares ela deu um grito de angústia!
— Eveline! Evvy!
Ele correu para o outro Lado do cordão de isolamento e a chamou, para que o seguisse. Gritaram para que fosse em frente, mas ele continuava a chamá-la. Ela o encarava com o rosto pálido, passivo, como um animal indefeso. Seus olhos não demonstra­vam qualquer sinal de amor, saudade, ou gratidão.

JOYCE, James. Dublinenses. São Paulo: Siliciano, 1993. 2ª ed. Tradução de José Roberto O’Shea.

domingo, 26 de junho de 2011

Trilhas por onde andei...

Uma parcela mínina da trilha sonora que permeia os caminhos por onde andei... Melancolia? Talvez saudade daquilo que não fui e das épocas que não vivi.

Los Hermanos - Conversa de botas batidas

Ira! - Receita para se fazer um herói

Legião Urbana - Angra dos Reis

Engenheiros do Hawaii - Dom Quixote

sábado, 25 de junho de 2011

Quintal das lembranças

 Dois anos sem Michael

Nem parece, mas hoje, dia 25 de junho, completaram-se dois anos desde o dia em que o mundo todo ficou assombrado com a notícia do falecimento de Michael Jackson.

Sem entrar em detalhes sobre a sua vida, em especial os últimos anos em que viveu recluso, afastado da mídia, a não ser quando respondia em juízo as acusações que lhe eram feitas, prefiro recordar o artista genial que Michael foi, seja como cantor, compositor ou dançarino.

Obrigado por nos deixar sua arte de herança... R.I.P., Michael!

Jackson 5 - Ben (1972)

Billie Jean (1983) - Aniversário de 25 da Motown. Primeira vez 
que Michael executa o "moonwalk"

Say Say Say (1983) - Dueto com Paul McCartney 

We are the world (1985) - USA for Africa - Canção de autoria de
Michael Jackson e Lionel Richie.

O cemitério do Père-Lachaise


Num primeiro momento, pode soar macabro para os menos desavisados, mas não é de hoje que diferentes culturas empregam símbolos, cada qual com um significado específico, na ornamentação de sepulcros dos entes falecidos. Tamanha variedade simbólica deu origem a um ramo peculiar das artes - a arte tumular.

Em Paris, situa-se aquele que é considerado pelos especialistas o cemitério mais famoso do mundo, o cemitério do Père-Lachaise. Lá estão sepultadas várias personalidades, entre elas os escritores Honoré de Balzac, Oscar Wild e Marcel Proust, o pintor Eugène Delacroix, a cantora Édith Piaf, o compositor Frédéric Chopin, o codificador da doutrina espírita, Allan Kardec, e o líder da banda The Doors, Jim Morrison, isso só pra citar alguns.

Para quem se interessar, é possível fazer um tour virtual pelo cemitério, visitando o site oficial: http://www.pere-lachaise.com/


Túmulo da cantora francesa Édith Piaf

Local de descanso do compositor polonês Frédéric Chopin

Sepulcro do cantor Jim Morrison (The Doors)

Jazigo do doutrinador espírita Allan Kardec

sexta-feira, 24 de junho de 2011

A poesia de Donizete Galvão

SIMULACROS

                              Para Christina Menezes de Azevedo

Senhoras e senhores, o circo já ergueu sua lona.
Vêm o prefeito, a beldade, as mulheres da zona.

Todos se divertem com o espetáculo do ilusório.
Está aberto o reino do precário e do provisório.

Rufam todos os tambores, abrem-se as cortinas.
Nossa trupe mambembe exibe suas dores e sinas.

A orquestra toca Bolero: o ritmo vai crescendo.
O fraque do maestro tem no braço um remendo.

Eis Crystal Kimberley, a rainha do strip-tease.
Saiu do sertão do Sergipe, de nome Wandernise.

A mulher-rã, contorcionista vinda do circo russo,
Depila pernas e sovacos, mas se esquece do buço.

Com vocês, uma feroz leoa da savana africana.
Barriga vazia, não come gato há uma semana.

A pássara Tatiana, trapezista bela e impávida,
Esconde do amante domador que está grávida.

Anaïs, índia guarani, que é exímia equilibrista,
Carece de vitaminas e de ir urgente ao dentista.

Alegria da criançada, o nosso palhaço Arrebita,
No trailer sujo, teve macarrão e ovo na marmita.

De noiva, vai-se casar uma anã, loira oxigenada.
Que graça! Puxam-lhe o vestido e ela corre pelada.

Aplausos para o salto mortal de sonho e pobreza.
Onde uns vêem o belo, outros enxergam a tristeza.


Silêncio

De pedra ser.
Da pedra ter
o duro desejo de durar.
Passem as legiões
com seus ossos expostos.
Chorem os velhos
com casacos de naftalina.
A nave branca chega ao porto
e tinge de vinho o azul do mar.
O maciço de rocha,
de costas para a cidade
sete vezes destruída,
celebra o silêncio.
A pedra cala
o que nela dói.


Anel Caucasiano

Olha para o anel de ferro
e mantém acesa a lembrança.
Lembra-te dos dez mil anos
no miolo escuro do rochedo.
Lembra-te, depois, da visitante
e do barulho de suas asas.
Lembra-te da humilhação
de revelar o que era segredo.
Lembra-te de tudo
antes que todos se esqueçam dessa história
e, mero acidente geográfico,
reste apenas a montanha de pedra.


Deus do Deserto

um deus de pedra
             de cerne
inoxidável
         um deus de ferro
pontiagudo
um deus que brota da fronte
             de puro cristal
deus de concreto
             asséptico
deus que não pune
deus que não salva

* * *

Donizete Galvão (Borda da Mata-MG, 24 de agosto de 1955) é um poeta e jornalista brasileiro. Durante a infância em Minas Gerais, Galvão se aproximou da poesia brasileira e, em especial, a poesia modernista mineira, que lhe chegava por intermédio do Suplemento Cultural de Minas Gerais: Carlos Drummond de Andrade, Emílio Moura, Henriqueta Lisboa, Dantas Motta, Murilo Mendes.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

O trapézio de Órion


Naquele minuto, sentiu que havia envelhecido uns cinquenta anos. Era como se seu sangue doce e jovem repentinamente tivesse adquirido a tonalidade turva do rio cujas águas cristalinas vão se misturando às terras adormecidas de um leito assoreado.

O vento frio que soprava na copa das árvores recobrou-lhe os sentidos. Sentiu o corpo estremecer e lembrou-se que de fato já haviam se passado mais de cinquenta anos. As têmporas acinzentadas que diariamente fitava no espelho do banheiro não o deixavam mentir.

Com as mãos cerradas, esfregou os olhos e voltou o rosto para o céu. Sentia-se reconfortado ao reencontrá-las ao longo dos anos, sempre no mesmo local: Mintaka, Alnilan e Alnitaka, as três Marias, que reunidas formavam o cinturão da constelação de Órion.

A mania de contemplar o céu nas noites límpidas herdara do pai, astrônomo amador, poeta errante e esquizofrênico. Jamais decorara o nome ou a posição das demais constelações, para desgosto paterno. Contudo, por algum inexplicável motivo, ficou gravado em sua memória aquela que representava a figura do herói cujo amor pela deusa Artemis jamais se realizou plenamente, por obra dos ciúmes do irmão desta, o deus Apolo.

Na superfície da lágrima que inesperadamente escorreu pelo olho esquerdo, boiaram as lembranças do dia em que viu o pai sendo arrastado casa afora, enquanto a mãe, aos prantos, tentava explicar ao garoto que o pai estava doente e precisava de tratamento. Ainda na infância, o cachorro que ganhou de presente do tio e que foi batizado com o nome da sua constelação guardiã, e que por quase quinze anos foi seu melhor amigo.

E de quando já homem feito, ouviu e fez falsas promessas de amor, como certa vez que caminhavam pelas areias da praia deserta, imersos na solidão noturna, cúmplices de um mesmo crime. E dizia a ela que, se algum dia se sentisse só, bastaria ela deitar seus olhos castanhos sobre o trapézio de Órion, que naquele instante ele estaria por lá, à sua espera, como um anjo que vigia os passos de uma criança distraída.

Quão tolo se sentia agora. E mesmo assim, continuava a alimentar aquele modo de sofrer quase ingênuo, sem jamais abandonar o hábito de vigiar as três estrelas de nome Maria, de deixar-se levar pelas águas da memória, de pensar que assim como ele, alguém, naquele exato momento, estaria com os olhos repousados no longínquo trapézio de Órion.

* * *

Goiânia, 23 de junho de 2011.

Glauber Ramos

terça-feira, 21 de junho de 2011

Você sabe com quem está falando?

Palestra genial do Professor Mario Sergio Cortella, colocando o ser humano em seu devido lugar. Afinal, quem somos nós perante a grandeza do universo?


Considerações sobre o Tempo


Creio que uma das molas impulsionadoras da Revolução Industrial e de todo o avanço tecnológico que hodiernamente vivenciamos é a necessidade do homem em otimizar o tempo de que dispõe. Nesse sentido, os produtos que a cada dia deságuam no mercado se afiguram como verdadeiros operadores de milagres, na medida em que prometem reduzir o tempo despendido em certas tarefas, transmitindo a nós, consumidores, a falsa ilusão de que no final das contas ainda nos restam alguns minutos a serem aproveitados no final do dia.

Paradoxalmente, a humanidade nunca experimentou dias tão assoberbados de compromissos e tarefas como os de hoje. E, de consequência, vigora a lei do egoísmo, pois soa cada vez mais absurdo despender o tempo próprio em benefício do próximo.

Com rara sensibilidade, Fabrício Carpinejar tratou desse assunto, o qual tem sido um tema caro aos homens de hoje. A crônica se chama "Tempo é Ternura".


TEMPO É TERNURA

Viver tem sido adiantar o serviço do dia seguinte. No domingo, já estamos na segunda, na terça já estamos na quarta e sempre um dia a mais do dia que deveríamos viver. Pelo excesso de antecedência, vamos morrer um mês antes.

Está na hora de encarar a folha branca da agenda e não escrever. O costume é marcar o compromisso e depois adiar, que não deixa de ser uma maneira de ainda cumpri-lo.

Tempo é ternura.

Perder tempo é a maior demonstração de afeto. A maior gentileza. Sair daquele aproveitamento máximo de tarefas. Ler um livro para o filho pequeno dormir. Arrumar as gavetas da escrivaninha de sua mulher quando poderia estar fazendo suas coisas. Consertar os aparelhos da cozinha, trocar as pilhas do controle remoto. Preparar um assado de 40 minutos. Usar pratos desnecessários, não economizar esforço, não simplificar, não poupar trabalho, desperdiçar simpatia.

Levar uma manhã para alinhar os quadros, uma tarde para passar um paninho nas capas dos livros e lembrar as obras que você ainda não leu. Experimentar roupas antigas e não colocar nenhuma fora. Produzir sentido da absoluta falta de lógica.

Tempo é ternura.

O tempo sempre foi algoz dos relacionamentos. Convencionou-se explicar que a paixão é biológica, dura apenas dois anos e o resto da convivência é comodismo.

Não é verdade, amor não é intensidade que se extravia na duração.

Somente descobriremos a intensidade se permitirmos durar. Se existe disponibilidade para errar e repetir. Quem repete o erro logo se apaixonará pelo defeito mais do que pelo acerto e buscará acertar o erro mais do que confirmar o acerto. Pois errar duas vezes é talento, acertar uma vez é sorte.

Acima da obsessão de controlar a rotina e os próximos passos, improvisar para permanecer ao lado da esposa. Interromper o que precisamos para despertar novas necessidades.

Intensidade é paciência, é capricho, é não abandonar algo porque não funcionou. É começar a cuidar justamente porque não funcionou.

Casais há mais de três décadas juntos perderam tempo. Criaram mais chances do que os demais. Superaram preconceitos. Perdoaram medos. Dobraram o orgulho ao longo das brigas. Dormiram antes de tomar uma decisão.

Cederam o que tinham de mais precioso: a chance de outras vidas. Dar uma vida a alguém será sempre maior do que qualquer vida imaginada.

(Fabrício Carpinejar)

segunda-feira, 20 de junho de 2011

OFÍCIO DA POESIA

Ainda é noite alta quando o poeta
Descreve no céu um sol estático
Trazendo a lume coisas há muito
Adormecidas em sua solidão:
 
Um escorpião de vidro
A moedinha de prata, presente do
[bisavô
O retrato de Maria no fundo da gaveta
Tocado na face pelos dedos amarelos
Do tempo
 
O poeta escafandrista vasculha
Almas revoltas imersas em destinos
[incertos
E à tona, quase sem ar
É senhor dos mais recônditos segredos
Encerrados em câmaras de chumbo
 
E das tardes vazias e mortas
O poeta procederá no destilo
Do vinho novo e temperado
Para que todos celebrem, à mesa,
A chuva de nêutrons no coração da
[supernova,
A cidade desvencilhada,
O princípio do novo
 
* * *
 
Goiânia, junho de 2006

domingo, 19 de junho de 2011

«E N T R E A S P A S»


"A luz acha que viaja mais rápido que tudo, mas está errada. Não importa quão rápido a luz viaje, ela descobre que a escuridão sempre chega antes e está à sua espera"

Terry Pratchett (1948) - escritor inglês


  


Ouvindo agora: Neil Young - Old Man

sábado, 18 de junho de 2011

Quintal das lembranças


Fernando Sabino
o homem que morreu menino

Fernando Tavares Sabino (BH, 12/10/1923 - Rio, 11/10/2004) foi, ao lado do amigo Rubem Braga, um dos maiores representantes da crônica brasileira. Mas não limitou-se a esse gênero literário. Com mais de cinquenta livros publicados, dois romances de sua lavra ocupam lugar de destaque na literatura brasileira do século XX e disputam entre si a posição de obra prima do autor: O encontro marcado (1956) e O grande mentecapto (1959).

O escritor, tido como um dos mais populares e queridos do país, foi vítima da execração por grande parte da imprensa a partir dos anos 90. Mais precisamente em 1991, quando foi lançada a biografia da ex-ministra do governo Collor, Zélia Cardoso de Mello, intitulada Zélia, uma paixão. Naquela altura dos acontecimentos, um escritor da importância de Fernando Sabino escrever a biografia de uma ministra que ficou marcada na história do país pelo confisco da poupança não pegou bem. E a partir daí Sabino rompeu com a imprensa e tornou-se uma pessoa reclusa.

O homem que nasceu num 12 de outubro, o dia das crianças, faleceu às vésperas de completar 81 anos de idade, em 11 de outubro de 2004, vítima de um câncer no fígado. Certa vez ele escreveu: "Quando eu era menino, os mais velhos perguntavam: o que você quer ser quando crescer? Hoje não perguntam mais. Se perguntassem, eu diria que quero ser menino". O sonho de ser um eterno menino ficou imortalizado em sua lápide, a qual ostenta o epitáfio que ele mesmo redigiu: "Aqui jaz Fernando Sabino. Nasceu homem, morreu menino".
Biografia completa: Releituras


O Homem Nu

Fernando Sabino
Ao acordar, disse para a mulher:

— Escuta, minha filha: hoje é dia de pagar a prestação da televisão, vem aí o sujeito com a conta, na certa.  Mas acontece que ontem eu não trouxe dinheiro da cidade, estou a nenhum.

— Explique isso ao homem — ponderou a mulher.

— Não gosto dessas coisas. Dá um ar de vigarice, gosto de cumprir rigorosamente as minhas obrigações. Escuta: quando ele vier a gente fica quieto aqui dentro, não faz barulho, para ele pensar que não tem ninguém.   Deixa ele bater até cansar — amanhã eu pago.

Pouco depois, tendo despido o pijama, dirigiu-se ao banheiro para tomar um banho, mas a mulher já se trancara lá dentro. Enquanto esperava, resolveu fazer um café. Pôs a água a ferver e abriu a porta de serviço para apanhar o pão.  Como estivesse completamente nu, olhou com cautela para um lado e para outro antes de arriscar-se a dar dois passos até o embrulhinho deixado pelo padeiro sobre o mármore do parapeito. Ainda era muito cedo, não poderia aparecer ninguém. Mal seus dedos, porém, tocavam o pão, a porta atrás de si fechou-se com estrondo, impulsionada pelo vento.

Aterrorizado, precipitou-se até a campainha e, depois de tocá-la, ficou à espera, olhando ansiosamente ao redor. Ouviu lá dentro o ruído da água do chuveiro interromper-se de súbito, mas ninguém veio abrir. Na certa a mulher pensava que já era o sujeito da televisão. Bateu com o nó dos dedos:

— Maria! Abre aí, Maria. Sou eu — chamou, em voz baixa.

Quanto mais batia, mais silêncio fazia lá dentro.

Enquanto isso, ouvia lá embaixo a porta do elevador fechar-se, viu o ponteiro subir lentamente os andares...  Desta vez, era o homem da televisão!

Não era. Refugiado no lanço da escada entre os andares, esperou que o elevador passasse, e voltou para a porta de seu apartamento, sempre a segurar nas mãos nervosas o embrulho de pão:

— Maria, por favor! Sou eu!

Desta vez não teve tempo de insistir: ouviu passos na escada, lentos, regulares, vindos lá de baixo... Tomado de pânico, olhou ao redor, fazendo uma pirueta, e assim despido, embrulho na mão, parecia executar um ballet grotesco e mal ensaiado. Os passos na escada se aproximavam, e ele sem onde se esconder. Correu para o elevador, apertou o botão. Foi o tempo de abrir a porta e entrar, e a empregada passava, vagarosa, encetando a subida de mais um lanço de escada. Ele respirou aliviado, enxugando o suor da testa com o embrulho do pão.

Mas eis que a porta interna do elevador se fecha e ele começa a descer.

— Ah, isso é que não!  — fez o homem nu, sobressaltado.

E agora? Alguém lá embaixo abriria a porta do elevador e daria com ele ali, em pêlo, podia mesmo ser algum vizinho conhecido... Percebeu, desorientado, que estava sendo levado cada vez para mais longe de seu apartamento, começava a viver um verdadeiro pesadelo de Kafka, instaurava-se naquele momento o mais autêntico e desvairado Regime do Terror!

— Isso é que não — repetiu, furioso.

Agarrou-se à porta do elevador e abriu-a com força entre os andares, obrigando-o a parar.  Respirou fundo, fechando os olhos, para ter a momentânea ilusão de que sonhava. Depois experimentou apertar o botão do seu andar. Lá embaixo continuavam a chamar o elevador.  Antes de mais nada: "Emergência: parar". Muito bem. E agora? Iria subir ou descer?  Com cautela desligou a parada de emergência, largou a porta, enquanto insistia em fazer o elevador subir. O elevador subiu.

— Maria! Abre esta porta! — gritava, desta vez esmurrando a porta, já sem nenhuma cautela. Ouviu que outra porta se abria atrás de si.

Voltou-se, acuado, apoiando o traseiro no batente e tentando inutilmente cobrir-se com o embrulho de pão. Era a velha do apartamento vizinho:

— Bom dia, minha senhora — disse ele, confuso.  — Imagine que eu...

A velha, estarrecida, atirou os braços para cima, soltou um grito:

— Valha-me Deus! O padeiro está nu!

E correu ao telefone para chamar a radiopatrulha:

— Tem um homem pelado aqui na porta!

Outros vizinhos, ouvindo a gritaria, vieram ver o que se passava:

— É um tarado!

— Olha, que horror!

— Não olha não! Já pra dentro, minha filha!

Maria, a esposa do infeliz, abriu finalmente a porta para ver o que era. Ele entrou como um foguete e vestiu-se precipitadamente, sem nem se lembrar do banho. Poucos minutos depois, restabelecida a calma lá fora, bateram na porta.

— Deve ser a polícia — disse ele, ainda ofegante, indo abrir.

Não era: era o cobrador da televisão.


Esta é uma das crônicas mais famosas do grande escritor mineiro Fernando Sabino. Extraída do livro de mesmo nome, Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1960, pág. 65.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

A TV Manchete vive!

Ok, ok! Tá certo que eu disse que esse blog seria suspenso por tempo indeterminado, mas não poderia deixar de compartilhar a descoberta do dia de hoje. Trata-se do site Rede Manchete, que abriga vasto conteúdo de vídeos e imagens relacionados ao extinto canal pertencente ao grupo Bloch, o qual encerrou suas atividades oficialmente em 10 de maio de 1999, sendo posteriormente substituído pela Rede TV!

Pra quem foi criança e adolescente nos dourados anos 80, é um prato cheio de lembranças, principalmente pelas séries japoneas como Jaspion, Changeman, Jiraya e tantas outras. Vale a pena perder um pouco de tempo e dar uma passeada por lá.

Em tempo: durante minha visita habitual ao Kibe Loco, vi esse vídeo que é um dos melhores que encontrei na net. Trata-se de um transeunte que diz ser um advogado chamado Mario Darius. Ao ser interpelado sobre questões sociais e políticas do país, ele retorna com respostas extremamente sinceras, apesar do escracho. E infelizmente, após duas décadas dessa entrevista, as respostas dele são bem atuais.


terça-feira, 14 de junho de 2011

domingo, 12 de junho de 2011

Cançonetas românticas

"O amor? Pássaro que põe ovos de ferro". Mas ainda que assim seja, "Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura".

Isso é Guimarães Rosa, meu povo! Aproveitem o domingão aí! Até mais...



Neil Young - Harvest moon

She - Charles Aznavour

Elvis Presley - Always on my mind

Joe Cocker - You are so beautiful

sábado, 11 de junho de 2011

Aviso aos amantes


Nobres são os corações que se expõem aos ímpetos do amor. Para o senhor e para a senhora que vão desfrutar a cumplicidade de olhares e partilhar juras de eterno amor neste domingo, feliz dia dos namorados! E para aqueles que ainda buscam o yang do seu yin, a metade da laranja, a tampa da panela, a sua cara metade, enfim, sejam pacientes. Afinal, como sabiamente escreveu Chico Buarque, não se afobe não, que nada é pra já / o amor não tem pressa, ele pode esperar... É, a esperança pode ser uma espera enorme.

Todas as cartas de amor...

Fernando Pessoa 
(Poesias de Álvaro de Campos)
 

Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)


Álvaro de Campos, 21/10/1935



Futuros amantes - Chico Buarque

Vinicius de Moraes declamando o "Soneto da Fidelidade"

Greta Garbo e o massacre dos pombinhos

Crônica "pescada" no Blog do Xico Sá

 

Uma semana infame para as damas e cavalheiros solitários. Que massacre. O romantismo como pacote de bugigangas: celulares, ipads, jantares finos, viagens, auto-ajuda, dvds. De Armani ao camelô, só se vendeu o amor.
A ditatura dos pombinhos, a felicidade em suaves prestações, sem juros. Mas com o  risco de tomar um pé na bunda antes de liquidar a fatura do cartão de crédito.
O maldito cupido de vitrine flechando os casais passantes, a cidade como um grande canteiro de baldes de flores. E você ainda com aquela obrigação muito romântica de uma baita performance na cama, mesmo depois de uma década de acasalamento. Como disse o Chaves ao Palocci, “fuerza, fuerza, camarada!”
A amiga B. desde ontem estava em pânico. Sozinha, odeia a efeméride pombilínea, blasfema aquelas obviedades todas, fala da hipocrisia etc. Mas o que a faz mais puta ainda é o almoço de amanhã, em plena data, o enrosco –verdadeiro ou falso- dos casais, dia em que até o flanelinha solitário suspira de inveja.
Ela faz questão de ir sozinha para o restaurante e desafiar os pombinhos que arrulham espezinhando sobre petit gauteaus e outras falsas impressões de que a vida é doce.
B. encarna a Greta Garbo -"i want to be alone!". Dispensa o amigo gay com quem sempre sai e expõe sua inoxidável solidão na mais lotada das casas. É quase uma provocação. Quase uma obra de arte panfletária contra essa coisinha bossanovística de que é impossível ser feliz sozinho.
Será?
De alguma forma a resistência da minha amiga e a sua Síndrome de Greta Garbo funcionam. Além de render muitas gargalhadas aos amigos quando ela narra a cena da sua solidão exposta como numa Bienal. 
Agora com licença que vou ali comprar a minha bugiganga, minha muamba, porque o amor aqui em casa é tão paraguaio quanto o meu uísque. Mas é igualmente lindo como o de vosotros.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

TOCANTINS

Bandeira do Estado do Tocantins

Uma pequena homenagem ao meu Estado natal, que sempre levarei comigo em minhas lembranças, aonde quer que eu vá.

TOCANTINS

Composição: Lucimar

Água doce no riacho, ali
Correnteza, cachoeira, aqui
Jaçanã, jandaia, sanhaçu
Araçá, marmelo, babaçu

Amarelo da cor de capim
Um deserto verde, Jalapão
Viajante pé no chão, Bonfim
E esse rio que desagua afim

Tucanos, araras, coivaras, Tocantins
Carajás dançando, Coxini
Javaés cantarolando assim

Canoa, pescador, avoa passarim
Nunca vi tanta beleza enfim
Natureza transbordando em mim

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Entre irmãos

Um conto de José J. Veiga


O escritor José J. Veiga
O menino sentado à minha frente é meu irmão, assim me disseram; e bem pode ser verdade, ele regula pelos dezessete anos, justamente o tempo que estive solto no mundo, sem contato nem notícia. Quanta coisa muda em dezessete anos, até os nossos sentimentos, e quanta coisa acontece — um menino nasce, cresce e fica quase homem e de repente nos olha na cara e temos que abrir lugar para ele em nosso mundo, e com urgência porque ele não pode mais ficar de fora.

A princípio quero tratá-lo como intruso, mostrar-lhe a minha hostilidade, não abertamente para não chocá-lo, mas de maneira a não lhe deixar dúvida, como se lhe perguntasse com todas as letras: que direito tem você de estar aqui na intimidade de minha família, entrando nos nossos segredos mais íntimos, dormindo na cama onde eu dormi, lendo meus velhos livros, talvez sorrindo das minhas anotações à margem, tratando meu pai com intimidade, talvez discutindo a minha conduta, talvez até criticando-a? Mas depois vou notando que ele não é totalmente estranho, as orelhas muito afastadas da cabeça não são diferentes das minhas, o seu sorriso tem um traço de sarcasmo que eu conheço muito bem de olhar-me ao espelho, o seu jeito de sentar-se de lado e cruzar as pernas tem impressionante semelhança com o meu pai. De repente fere-me a idéia de que o intruso talvez seja eu, que ele tenha mais direito de hostilizar-me do que eu a ele, que vive nesta casa há dezessete anos, sem a ter pedido ele aceitou e fez dela o seu lar, estabeleceu intimidade com o espaço e com os objetos, amansou o ambiente a seu modo, criou as suas preferências e as suas antipatias, e agora eu caio aí de repente desarticulando tudo com minhas vibrações de onda diferente. O intruso sou eu, não ele.

Ao pensar nisso vem-me o desejo urgente de entendê-lo e de ficar amigo, de derrubar todas as barreiras, de abrir-lhe o meu mundo e de entrar no dele. Faço-lhe perguntas e noto a sua avidez em respondê-las, mas logo vejo a inutilidade de prosseguir nesse caminho, as perguntas parecem-me formais e as respostas forçadas e complacentes. Há um silêncio incômodo, eu olho os pés dele, noto os sapatos bastante usados, os solados revirando-se nas beiradas, as rachaduras do couro como mapa de rios em miniatura, a poeira acumulada nas fendas. Se não fosse o receio de parecer fútil eu perguntaria se ele tem outro sapato mais conservado, se gostaria que lhe oferecesse um novo, e uma roupa nova para combinar. Mas seria esse o caminho para chegar a ele? Não seria um caminho simples demais, e por conseguinte inadequado?

Tenho tanta coisa a dizer, mas não sei como começar, até a minha voz parece ter perdido a naturalidade, sinto que não a governo, eu mesmo me aborreço ao ouvi-la. Ele me olha, e vejo que está me examinando, procurando decidir se devo ser tratado como irmão ou como estranho, e imagino que as suas dificuldades não devem ser menores do que as minhas. Ele me pergunta se eu moro numa casa grande, com muitos quartos, e antes de responder procuro descobrir o motivo da pergunta. Por que falar em casa? E qual a importância de muitos quartos? Causarei inveja nele se responder que sim? Não, não tenho casa, há muito tempo que tenho morado em hotel. Ele me olha parece que fascinado, diz que deve ser bom viver em hotel, e conta que toda vez que faz reparos à comida mamãe diz que ele deve ir para um hotel, onde pode reclamar e exigir. De repente o fascínio se transforma em alarme, e ele observa que se eu vivo em hotel não posso ter um cão em minha companhia, o jornal disse uma vez que um homem foi processado por ter um cão em um quarto de hotel. Não me sinto atingido pela proibição, se é que existe, nunca pensei em ter um cão, não resistiria me separar dele quando tivesse que arrumar as malas, como estou sempre fazendo; mas devo dizer-lhe isso e provocar nele uma pena que eu mesmo não sinto? Confirmo a proibição e exagero a vigilância nos hotéis. Ele suspira e diz que então não viveria num hotel nem de graça.

Ficamos novamente calados e eu procuro imaginar como será ele quando está com seus amigos, quais os seus assuntos favoritos, o timbre de sua risada quando ele está feliz e despreocupado, a fluência de sua voz quando ele pode falar sem ter que vigiar as palavras. O telefone toca lá dentro e eu fico desejando que o chamado seja para um de nós, assim teremos um bom pretexto para interromper a conversa sem ter que inventar uma desculpa; mas passa-se muito tempo e perco a esperança, o telefone já deve até ter sido desligado. Ele também parece interessado no telefone, mas disfarça muito bem a impaciência. Agora ele está olhando pela janela, com certeza desejando que passe algum amigo ou conhecido que o salve do martírio, mas o sol está muito quente e ninguém quer sair à rua a essa hora do dia. Embaixo na esquina um homem afia facas, escuto o gemido fino da lâmina no rebolo e sinto mais calor ainda. Quando eu era menino tive uma faca que troquei por um projetor de cinema feito por mim mesmo — uma caixa de sapato dividida ao meio, um buraquinho quadrado, uma lente de óculos — e passava horas à beira do rego afiando a faca, servia para descascar cana e laranja. Vale a pena dizer-lhe isso ou será muita infantilidade, considerando que ele está com dezessete anos e eu tinha uns dez naquele tempo? É melhor não dizer, só o que é espontâneo interessa, e a simples hesitação já estraga a espontaneidade.

Uma mulher entra na sala, reconheço nela uma de nossas vizinhas, entra com o ar de quem vem pedir alguma coisa urgente. Levanto-me de um pulo para me oferecer; ela diz que não sabia que estávamos conversando, promete não nos interromper, pede desculpa e desaparece. Não sei se consegui disfarçar um suspiro, detesto aquela consideração fora de hora, e sou capaz de jurar que meu irmão também pensa assim. Olhamo-nos novamente já em franco desespero, compreendemos que somos prisioneiros um do outro, mas compreendemos também que nada podemos fazer para nos libertar. Ele diz qualquer coisa a respeito do tempo, eu acho a observação tão desnecessária — e idiota — que nem me dou ao trabalho de responder.

Francamente já não sei o que fazer, a minha experiência não me socorre , não sei como fugir daquela sala, dos retratos da parede, do velho espelho embaciado que reflete uma estampa do Sagrado Coração, do assoalho de tábuas empenadas formando ondas. Esforço-me com tanta veemência que a consciência do esforço me amarra cada vez mais àquelas quatro paredes. Só uma catástrofe nos salvaria, e eu desejo intensamente um terremoto ou um incêndio, mas infelizmente essas coisas não acontecem por encomenda. Sinto o suor escorrendo frio por dentro da camisa e tenho vontade de sair dali correndo, mas como poderei fazê-lo sem perder para sempre alguma coisa muito importante, e como explicar depois a minha conduta quando eu puder examiná-la de longe e ver o quanto fui inepto? Não, basta de fugas, preciso ficar aqui sentado e purgar o meu erro.

A porta abre-se abruptamente e a vizinha entra de novo apertando as mãos no peito, olha alternadamente para um e outro de nós e diz, numa voz que mal escuto:

— Sua mãe está pedindo um padre.

Levantamos os dois de um pulo, dando graças a Deus — que ele nos perdoe — pela oportunidade de escaparmos daquela câmara de suplício.

* * *

José J. Veiga (José Jacintho Pereira Veiga) - escritor goiano, natural de Corumbá de Goiás, onde nasceu em 1915. A assinatura que adotou como escritor (a abreviação do seu segundo nome, Jacintho) foi sugestão do místico amigo Guimarães Rosa. Embora não seja tão conhecido no Brasil, José J. Veiga teve boa parte de sua obra publicada em países como Estados Unidos, Inglaterra, México, Portugal e outros tantos. Sua literatura insere-se dentro do chamado realismo fantástico, que tem entre seus principais autores nomes como Gabriel García Marquez, Jorge Luís Borges e Julio Cortázar. Para muitos, José J. Veiga é considerado o principal escritor desse gênero em língua portuguesa. Faleceu em 1999, aos 84 anos de idade na cidade do Rio de Janeiro, onde viveu por mais de quatro décadas.

 

Conto retirado do livro "Os cavalinhos de Platiplanto" - Editora Bertrand Brasil