quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Mapa - por Murilo Mendes

O poeta mineiro Murilo Mendes


Mapa

Me colaram no tempo, me puseram
uma alma viva e um corpo desconjuntado. Estou
limitado ao norte pelos sentidos, ao sul pelo medo,
a leste pelo Apóstolo São Paulo, a oeste pela minha educação.
Me vejo numa nebulosa, rodando, sou um fluído,
depois, chego à consciência da terra, ando como os outros,
me pregam numa cruz, numa única vida.
Colégio. Indignado, me chamam pelo número, detesto a hierarquia.
Me puseram o rótulo de homem, vou rindo, vou andando, aos solavancos.
Danço. Rio e choro, estou aqui, estou ali, desarticulado,
gosto de todos, não gosto de ninguém, batalho com os espíritos do ar,
alguém da terra me faz sinais, não sei bem o que é o bem
nem o mal.
Minha cabeça voou acima da baía, estou suspenso, angustiado, no éter,
tonto de vidas, de cheiros, de movimentos, de pensamentos,
não acredito em nenhuma técnica.
Estou com os meus antepassados, me balanço em arenas espanholas,
é por isso que saio às vezes pra rua combatendo personagens imaginários,
depois estou com os meus tios doidos, às gargalhadas,
na fazenda do interior, olhando os girassóis do jardim.
Estou no outro lado do mundo, daqui a cem anos, levantando populações...
Onde esconder a minha cara? O mundo samba na minha cabeça.
Triângulos, estrelas, noite, mulheres andando,
presságios brotando no ar, diversos pesos e movimentos me chamam a atenção,
o mundo vai mudar a cara,
a morte revelará o sentido verdadeiro das coisas.

Andarei no ar.
Estarei em todos os nascimentos e em todas as agonias,
me aninharei nos recantos do corpo da noiva,
na cabeça dos artistas doentes, dos revolucionários.
Tudo transparecerá:
vulcões de ódio, explosões de amor, outras caras aparecerão na terra,
o vento que vem da eternidade suspenderá os passos,
dançarei na luz dos relâmpagos, beijarei sete mulheres,
vibrarei nos cangerês do mar, abraçarei as almas no ar,
me insinuarei nos quatro cantos do mundo.

Almas desesperadas eu vos amo. Almas insatisfeitas, ardentes,
Detesto os que se tapeiam,
os que brincam de cabra-cega com a vida, os homens "práticos"...
Viva São Francisco e vários suicidas e amantes suicidas,
os soldados que perderam a batalha, as mães bem mães,
as fêmeas bem fêmeas, os doidos bem doidos.
Vivam os transfigurados, ou porque eram perfeitos ou porque jejuavam muito...
viva eu, que inauguro no mundo o estado de bagunça transcedente.
Sou a presa do homem que fui há vinte anos passados,
dos amores raros que tive,
vida de planos ardentes, desertos vibrando sob os dedos do amor,
tudo é ritmo do cérebro do poeta. Não me inscrevo em nenhuma teoria,
estou no ar,
na alma dos criminosos, dos amantes desesperados,
no meu quarto modesto da praia de Botafogo,
no pensamento dos homens que movem o mundo,
nem triste nem alegre, chama com dois olhos andando,
sempre em transformação.

Murilo Monteiro Mendes, nasceu dia 13 de maio de 1901, em Juiz Fora, Minas Gerais. Aos 9 anos diz ter tido uma revelação poética ao assistir a passagem do cometa Halley. Em 1917, uma nova revelação: fugiu do colégio em Niterói para assistir, no Rio de Janeiro, às apresentações do bailarino Nijinski. Muda-se definitivamente para o Rio em 1920. Os anos de 1924 a 1929 foram dedicados à formação cultural e à luta contra a instabilidade profissional. Foi arquivista no Ministério da Fazenda e funcionário do Banco Mercantil. Nesse período publica poemas em revistas modernistas como "Verde" e "Revista de Antropofagia". Seu primeiro livro, "Poemas", é publicado em 1930. É agraciado com o Prêmio Graça Aranha. Converte-se ao catolicismo em 1934. Torna-se inspetor de ensino em 1935. Em 1940, conhece Maria da Saudade Cortesão, com quem se casaria em 1947. Com tuberculose, é internado em sanatório na região de Petrópolis, em 1934. Em 1946, torna-se escrivão da 4ª Vara de Família do Distrito Federal. Cumpre missão cultural na Europa, proferindo diversas conferências. Muda-se para a Itália em 1957, onde se torna professor de Cultura Brasileira na Universidade de Roma. Foi também professor na Universidade de Pisa. Seus livros são publicados por toda a Europa. Em 1972, recebe o prêmio internacional de poesia Etna-Taormina. Vem ao Brasil pela última vez. Murilo Mendes morre em Lisboa, no dia 13 de agosto de 1975.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Genealogia Caymmiana

Da esquerda p/ direita: Danilo, Dori, Dorival e Nana. Talento hereditário


Um pequeno apanhado da família Caymmi em ação. Dorival Caymmi e seus filhos em momentos diversos. E viva a verdadeira música brasileira!

Dorival Caymmi - O que é que a bahiana tem?

Dorival Caymmi - O mar

Nana Caymmi - João Valentão

Dori Caymmi - O bem do mar

Danilo Caymmi - Marina

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Um pouco de surf music para relaxar...

Reza a lenda que em 1778, ao desembarcar em terras havaianas pela primeira vez, o capitão inglês James Cook deparou-se com homens habilidosos que deslizavam sobre ondas gigantes sem qualquer temor, montados em verdadeiros "cavalos de madeira".

Contudo, o surfe ganhou o mundo a partir de 1912, com o notável desempenho do nadador havaiano Duke Paoa Kahanamoku na olimpíada de Estocolmo, Suécia, onde conquistou a medalha de ouro nos 100 metros livre. A partir de então, Duke tornou-se um ferrenho divulgador do esporte havaiano, e seu arquipélago natal ficou mundialmente conhecido.

Sem maiores delongas, um pouco da chamada "surf music" para relaxar...

 
Donavon Frankenreiter - Your Heart

   
The Beach Boys - I get around

Animal Liberation Orchestra - Roses and Clover

 
Israel Kamakawiwo'ole - Hokule'a Star of Gladness

 
The Beautiful Girls - Let's Take The Long Way Home 

   
Lulu Santos - Sereia / De repente Califórnia / Como uma onda

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Quintal das lembranças


Pena Branca & Xavantinho

Uma dupla que deixou saudades. Sertanejos na acepção mais pura do termo, de quem realmente possui raízes fincadas na terra e a alma envolvida pelos mistérios da natureza. Representantes de um tempo mágico que se perdeu na curva da história do nosso país. Que Deus os tenha em um lugar merecido, à altura da humildade que cultivaram.



Calix Bento

Trecho do programa "Ensaio" da TV Cultura

Cuitelinho - Pena Branca

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

HUMANIZE

No final de dezembro de 2010, o Canal Futura lançou a campanha "Humanize", cujo objetivo é despertar nas pessoas os sentimentos de respeito e tolerância para com o próximo, a serem exercitados em todas as relações sociais.

A campanha contou com a participação do talentoso Marcelo Yuka (ex Rappa), autor da letra e música que compõe o clipe.

Não sei por qual motivo, mas a campanha me fez recordar o poema "Os estatutos do homem", do grande escritor amazonense Thiago de Mello, aqui reproduzido:


Os Estatutos do Homem (Ato Institucional Permanente)
A Carlos Heitor Cony

Artigo I
Fica decretado que agora vale a verdade.
agora vale a vida,
e de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo IV
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo único:
O homem, confiará no homem
como um menino confia em outro menino.

Artigo V
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.

Artigo VI
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

Artigo VII
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.

Artigo VIII
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.

Artigo IX
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha
sempre o quente sabor da ternura.

Artigo X
Fica permitido a qualquer pessoa,
qualquer hora da vida,
uso do traje branco.

Artigo XI
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.

Artigo XII
Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido,
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.

Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.

Artigo XIII
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.

Artigo Final.
Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.


Santiago do Chile, abril de 1964


Clipe Humanize

Quando o carnaval chegar...

Quando o carnaval chegar

Quem me vê sempre parado, distante,
Garante que eu não sei sambar
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar

Eu tô só vendo, sabendo,
Sentindo, escutando e não posso falar
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar
 
Eu vejo as pernas de louça
Da moça que passa e não posso pegar
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar

Há quanto tempo desejo seu beijo
Molhado de maracujá
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar
 
E quem me ofende, humilhando, pisando,
Pensando que eu vou aturar
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar

E quem me vê apanhando da vida
Duvida que eu vá revidar
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar

Eu vejo a barra do dia surgindo,
Pedindo pra gente cantar
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar
 
Eu tenho tanta alegria adiada,
Abafada, quem dera gritar
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar

(Chico Buarque)

Versão Chico Buarque

Versão Engenheiros do Hawaii

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Quintal das lembranças


Raul Seixas
O eterno maluco beleza


"Sim, curvo-me ante a beleza de ser.
Às vezes zombo de mim mesmo ao término de uma
inteligente e aguçada constatação.
Ermitão do insólito, poeta da dúvida.
Entretanto, duvido a dúvida por ser dúvida
fruto de uma premissa lógica.
Mas nego, afirmo e não duvido de nada.
Prisioneiro sem grade desse silêncio eterno"


Se a minha geração teve muito do seu comportamento moldado pelas letras politizadas e melancólicas da Legião Urbana, meio que nadando contra a corrente fui beber em outra fonte, que em certa medida guardava traços de semelhança com o pessoal de Brasília, mas ao mesmo tempo incursava por universos completamente novos, inimagináveis e fascinantes para um garoto que beirava seus 12 anos. Essa fonte chamava-se Raul Seixas.

Pai do rock brasileiro, maluco beleza, Raulzito... muitos são os codinomes atribuídos a este genial soteropolitano nascido em 28 de junho de 1945 e morto no dia 21 de agosto de 1989 na capital paulista, em decorrência de uma pancreatite aguda, fruto do consumo excessivo de álcool.

Talvez este seja o traço mais marcante de sua personalidade, o gosto pelos excessos, de quem constantemente caminha à beira de abismos só para sentir o gosto da adrenalina diluída no sangue.

Sobre sua carreira não discorrerei. Basta uma rápida visita ao Wikipédia e tudo estará lá, esmiuçado nos mínimos detalhes. Sobre a parceria com o "mago" e acadêmico Paulo Coelho... difícil dizer até que ponto essa amizade foi benéfica ou prejudicial para o Raul. Não fosse Paulo Coelho, não teríamos as letras geniais de "Gita", "Eu nasci há 10 mil anos atrás", "Meu amigo Pedro", "Quando você crescer" e tantas outras. Por outro lado, não fosse a influência de Paulo, Raul não teria entrado de cabeça no ocultismo, nas viagens lisérgicas pelas sociedades secretas, no esoterismo hippie regado pelo consumo das drogas. Difícil dimensionar. Será que sem todas essas "viagens", o maluco beleza Raul Seixas seria menos Raul do que ele foi?

De toda sorte, prefiro ficar com as lembranças que suas letras despertaram em mim um dia e que até hoje me acompanham: um traço marcante de irreverência, um certo desprezo pelos valores cultuados pela sociedade cada vez mais fútil e consumista, algum romantismo adolescente, de quem mesmo maluco sabia ouvir a voz do coração, um certo ar de mistério e encantamento diante da espaçonave que virá do futuro, carregada de notícias do Novo Aeon.

 Maluco Beleza

 Eu também vou reclamar

 Gita

 
O trem das sete

 
A maçã

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

RAZÃO DA POESIA




por que trabalha versos, o poeta?
talvez celebre a chuva primeira
que trouxe a estação das águas
quem sabe o natal vindouro, já
anunciado pelas luzes na vitrine

talvez tenha gritado o poeta
como um louco, pela janela
mas não encontrara resposta do mundo

ou então em silêncio se fechou
chamou a si, como quem clama
por um amigo perdido no tempo
mas a criatura indócil não se moveu

de Deus, guardara apenas
vagas impressões pueris
a elas invocou, todavia insuficientemente
para fazer-se escutar
nos rincões do infinito

incoerente, desarrazoado
o poeta vencido se deixa consumir
pelo ofício letal
artesão da própria dor

* * *
Goiânia, 04 de novembro de 2006

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

What a wonderful world

Acredito que a única música que pode competir com What a wonderful world em termos de popularidade planetária é a nossa Garota de Ipanema. Com uma letra simples, porém carregada de sentimentalismo, o clássico eternizado na voz inconfundível de Louis Armstrong (1901-1971) é uma daquelas canções que elevam o espírito e nos faz acreditar naquela menininha de olhos verdes, como bem definiu Mario Quintana, chamada Esperança.

Muitos artistas se dispuseram a regravá-la, mesmo sabendo que a versão de Armstrong tornara-se imortal. Numa combinação aparentemente improvável, What a wonderful world ganhou acordes do legítimo punk rock, sendo revisitada pelo inesquecível Joey Ramone (1951-2001), vocalista dos Ramones. Vale a pena conferir.

Joey Ramone

domingo, 6 de fevereiro de 2011

SUFOCO

O frio da madrugada afugentava os últimos notívagos, séquito de vagabundos, bêbados, viciados e prostitutas, gente das sombras. A um único homem pertencia a grande avenida naquele momento, em pleno centro da cidade. Sem olhar para trás, ele segue firme e rápido em sua missão. Um forte barulho faz seu coração palpitar.

A moto sumiu rapidamente, mas seu som ainda se fez presente por alguns segundos, multiplicados em longos minutos na cabeça do sujeito apressado. Cautelosamente, mete a mão esquerda sob a jaqueta para conferir se o embrulho está bem acondicionado no calor de sua axila direita.

Para tentar distrair a mente, olhava algumas vitrines ao longo da avenida. Aquele mundo de cores vivas e alegres estampadas em longos vestidos de seda contrastava profundamente com sua realidade. Por um momento deixou-se conduzir por devaneios, onde sua mãe inválida dançava alegremente, rodopiando a barra de um daqueles vestidos. Teve ódio e vontade de estraçalhar algumas vidraças, mas o tempo se tornava escasso e urgia que apressasse ainda mais seu caminhar.

Ao longe escutou estampidos, quiçá tiros. Pensou que seria melhor mudar de rota, mas a avenida era o caminho mais curto e, além disso, corria o risco de se perder, pois naquele dia não estava em seu território costumeiro.

Agora teve certeza de que o segundo barulho era de tiros, disparados a algumas quadras dali. Um choro de criança assustada entremeava a madrugada. Caminhava o mais rápido possível, porém tentando não chamar a atenção. Uma viatura passou em sentido perpendicular à avenida e era bem provável que cruzasse com ela algumas ruas abaixo. As mãos, geladas. Meteu-as nos bolsos dianteiros do velho jeans de guerra.

Teso era o seu corpo, resultado do medo e do frio. Não se preocupava em olhar para os lados ao atravessar as ruas, pois toda cidade àquela hora era um grande floresta de concreto escura e adormecida sob confortáveis edredons. Não em sua casa. Sabia o quanto era importante o dinheiro que ia receber.

Um grupo de homens desceu de um carro e conversou rapidamente com alguém que passava por ali, certamente algum mendigo viciado. Reconheceu a viatura, agora com o giroflex desligado. O indivíduo com o qual falaram parece ter dado alguma informação importante, pois a viatura arrancou violentamente, deixando um fétido rastro negro de borracha queimada no asfalto.

Não tinha outro jeito, precisava chegar o quanto antes. Levantou o capuz da jaqueta para proteger as orelhas do frio. Correu o mais rápido que pôde. No viaduto, um homem o esperava.

"Porra! Demorou com isso aí, índio!"

"Pega logo a encomenda, neguim. Fudeu! Some daqui!"

Entregou o embrulho, recebendo em troca um envelope recheado de dinheiro. Guardou o pacote amassado sob o calor da axila esquerda. Ainda escutou outros três disparos enquanto percorria a avenida no sentido oposto. Sabia que naquele momento o sangue ainda quente do companheiro escorria pelo asfalto. Sem muito pensar, adentrou uma rua desconhecida. Cogitou largar essa vida, mas amanhã faria outra entrega, bem mais valiosa.

* * *

Goiânia, junho de 2004. Revisado em 28 de setembro de 2010.

Lígia - por Tom e Roberto

Reportagem extraída da revista Marie Claire, 116, novembro de 2000

O quase romance

Os olhos verdes da carioca Lygia Marina de Moraes são morenos na letra de "Lígia". Um disfarce da identidade da musa e da atração de Tom Jobim por ela. Tom e Lygia, professora de pré-primário de uma das filhas do compositor, se conheceram em 1968, no bar Veloso, em Ipanema. Nunca houve nada entre os dois, mas aquele encontro daria origem ao samba-canção gravado por Chico Buarque no LP "Sinal Fechado", em 1974. "O Tom vivia de olho nela", diz o jornalista Ruy Castro, que registrou o episódio no livro "Ela é Carioca" (Cia. das Letras).

Por muitos anos Tom negou que Lygia fosse sua musa, em respeito ao amigo Fernando Sabino, marido dela na época. Só em 1994, quando o casal se separou, ele admitiu a inspiração aos amigos. Hoje, aos 54 anos, Lygia mora sozinha e dirige o departamento cultural da Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro. Ela recorda com orgulho os detalhes de seu caso jamais consumado com Tom Jobim. 

Lygia Marina de Moraes "Conheci o Tom em uma tarde chuvosa. O bar Veloso estava vazio, era junho e fazia frio. Eu e uma amiga, Cecília, nos sentamos na varanda e vimos o Tom conversando com Paulo Góes [fotógrafo]. Os dois acabaram se sentando na nossa mesa. Quando contei ao Tom que era professora da sua filha Beth, ele teve um ataque de riso e disse: 'É a primeira vez que paquera vira reunião de pais e mestres!'. E eu babando: imagine, em 68, Tom era um dos homens mais lindos do Brasil

Ele tinha que dar uma entrevista a Clarice Lispector para a 'Manchete', e convidou a mim e a Cecília para ir com ele. Fomos no fusquinha azul-claro do Tom. Eu usava uma saia de lã e um suéter de cashmere. Ao abrir a porta, Clarice fez cara de mau humor. Tom, abraçado comigo e com Cecília, disse: 'Trouxe minhas amigas'. Ela ficou mais furiosa quando pediu a Tom que fizesse um poema para ela, como Vinícius [de Moraes] teria feito em entrevista anterior, e ele disse: 'Não sou poeta, se tivesse um violão...'.

Mas aí pegou um bloco de papel-jornal e escreveu um poema para mim, que guardo até hoje: 'Teus olhos verdes são maiores que o mar/ Se um dia eu fosse tão forte quanto você/ Eu te desprezaria e viveria no espaço/ Ou talvez então eu te amasse/ Ai que saudades me dá/ Da vida que eu nunca tive', e assinou: A.C.J.

Saindo de lá, Tom me levou em casa. Nos despedimos no carro, com um beijinho no rosto. Fiquei nervosíssima, mas parou ali. Tom era casado... Aquela carona foi nosso único encontro a sós. A música fala de tudo o que não aconteceu: o cinema, o passeio na praia... Depois nos encontramos muitas vezes, mas sempre em grupo. Logo me casei com o cineasta Fernando Amaral e entrei para a turma. Vivi o auge de Ipanema.

Após quatro anos de casada e um filho, me separei. Depois me casei com o escritor Fernando Sabino. Em 1973, acho que Tom não sabia que eu estava casada com ele, e ligou para o Fernando pedindo meu telefone. Meu marido fez uma sacanagem: deu um número errado. Em seguida, ligou para o telefone que tinha dado e avisou: 'O Tom Jobim vai ligar aí procurando uma Lígia, mas o telefone é tal', e deu outro número errado. Os amigos ficaram sabendo dessa história, inclusive o Tom. Talvez daí tenha surgido a frase na música que fala do telefonema que foi engano.

Estava sozinha em casa quando ouvi no rádio o Chico cantando 'Lígia', pela primeira vez. Fui correndo comprar o disco. Na hora, me vi na letra. Ser homenageada já é maravilhoso, ainda mais pelo Tom, com uma música linda e sofisticada... É uma glória. Claro que a música rendeu comentários e Fernando ficou uma fera. Durante os 19 anos em que fui casada, Tom evitou o tema. Estivemos juntos em vários lugares, tipo réveillon na casa de Jorge Amado, eu com Fernando e Tom com Ana, sua segunda mulher. Mas ninguém falava nisso.

Um dia, Tom me encontrou por acaso na Cobal [sacolão e ponto de encontro] e falou: 'Está chegando minha musa!'. Foi a primeira vez que admitiu para mim. Até hoje, em cada boteco que entro tocam 'Lígia'. Faz parte do meu show. Fiquei imortal. Tenho quase todas as gravações de 'Lígia'. Existe até uma versão do João Gilberto em que, ao contrário da oficial, o romance acontece e Tom até se casa comigo. As pessoas me cobram o fato de nunca ter acontecido nada entre a gente. Mas será que não foi melhor ter ficado essa fantasia? Talvez tivesse de ser essa a história: eu virar musa, entrar em um restaurante e me lembrar do Tom, cheio de charme."
 

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 Roberto Carlos e Tom Jobim - Lígia

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Ao quadrado

Sonhar duas vezes
Sonhar que se sonha
Dentro de um sonho:
Ao quadrado
E deste segundo sonho
Lançar uma corda que
Se prenda ao primeiro

É como pegar na voz de
[um pássaro
E amarrá-la num braço
[de vento
E assim escutar seu canto
Eternamente

* * *

Goiânia, junho de 2006

Quintal das lembranças

Waly Salomão
O poeta da Tropicália

Filho de pai sírio e mãe sertaneja, o poeta baiano de Jequié Waly Salomão (1944-2003) deveria chamar-se "Ali", nome árabe que significa "o iluminado". Todavia, porque supostamente estivesse bêbado, o funcionário do cartório gravou o nome tal qual permaneceu, iniciado com W e finalizado com Y.

Mas chamá-lo de poeta somente é pouco. Waly também caminhou com desenvoltura pelas artes plásticas, música, cinema, enfim, por todos os terrenos onde pudesse colocar em prática sua irreverência e criatividade convulsiva.

Entre suas parcerias musicais, destacam-se Gal Costa, principal intérprete de suas canções, o cantor e compositor carioca Jards Macalé, e ultimamente o grupo O Rappa, que chegou a homenageá-lo em um dos seus discos.

Alguns poemas de Waly:
 
Devenir, devir

Término de leitura
de um livro de poemas
não pode ser o ponto final.

Também não pode ser
a pacatez burguesa do
ponto seguimento.

Meta desejável:
alcançar o
ponto de ebulição.

Morro e transformo-me.

Leitor, eu te reproponho
a legenda de Goethe:
Morre e devém

Morre e transforma-te.  


Amante da Algazarra

Não sou eu quem dá coices ferradurados no ar.
É esta estranha criatura que fez de mim seu encosto.
É ela !!!
Todo mundo sabe, sou uma lisa flor de pessoa,
Sem espinho de roseira nem áspera lixa de folha de figueira.

Esta amante da balbúrdia cavalga encostada ao meu sóbrio ombro
Vixe!!!
Enquanto caminho a pé, pedestre -- peregrino atônito até a morte.
Sem motivo nenhum de pranto ou angústia rouca ou desalento:
Não sou eu quem dá coices ferradurados no ar.
É esta estranha criatura que fez de mim seu encosto
E se apossou do estojo de minha figura e dela expeliu o estofo.

Quem corre desabrida
Sem ceder a concha do ouvido
A ninguém que dela discorde
É esta
Selvagem sombra acavalada que faz versos como quem morde.
 
 
Hoje
O que menos quero pro meu dia
polidez, boas maneiras.
Por certo,
               um Professor de Etiquetas
não presenciou o ato em que fui concebido.
Quando nasci, nasci nu,
ignaro da colocação correta dos dois pontos,
do ponto e vírgula,
e, principalmente, das reticências.
(Como toda gente, aliás...)
Hoje só quero ritmo.
Ritmo no falado e no escrito.
Ritmo, veio-central da mina.
Ritmo, espinha-dorsal do corpo e da mente.
Ritmo na espiral da fala e do poema.
Não está prevista a emissão
de nenhuma “Ordem do dia”.
Está prescrito o protocolo da diplomacia.
AGITPROP – Agitação e propaganda:
Ritmo é o que mais quero pro meu dia-a-dia.
Ápice do ápice.
Alguém acha que ritmo jorra fácil,
pronto rebento do espontaneísmo?
Meu ritmo só é ritmo
quando temperado com ironia.
Respingos de modernidade tardia?
E os pingos d’água
dão saltos bruscos do cano da torneira
                e
passam de um ritmo regular
para uma turbulência
                aleatória.
Hoje...

Mal secreto (Waly Salomão e Jards Macalé)

Vapor barato (Waly e Jards) - O Rappa

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Um brasileiro exemplar

O ocorrido se deu no dia 21 de dezembro de 2010. Indicado para receber a comenda Dom Helder Câmara, outogarda pela Comissão de Direitos Humanos do Senado Federal, o bispo de Limoeiro do Norte (CE), Dom Manuel Edmilson da Cruz, não titubeou em recusar aquela "honraria".

Em protesto ao aumento aprovado pelos parlamentares, o qual elevou em 61,8% os seus respectivos vencimentos, Dom Manuel afirmou em bom tom que o reajuste representava uma afronta aos direitos humanos do povo brasileiro. Para ele, “Quem assim procedeu não é parlamentar, é para lamentar”.

Segue abaixo o discurso proferido por este grande brasileiro, em pleno Senado Federal. Um exemplo de retidão e humildade para todos nós.


LIÇÕES DA LÂMINA


LIÇÕES DA LÂMINA

Laranja ao meio entre
Dois irmãos
Dedo cortado gota de sangue um
Berro infantil estremece as portas e
Invade os labirintos da casa

* * *

Ritos de passagem são lâminas a fio
Seccionando a linearidade da vida

* * *

Lição do gume:
Que o avesso da faca é o inteiro

Glauber Ramos

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Caçada


CHÁ DAS CINCO

CHÁ DAS CINCO
 
                                para Jorge Amado
 
Chá de poejo para o teu desejo
chá de alfavaca já que a carne é fraca
chá de poaia e rabo de saia
chá de erva-cidreira se ela for solteira
chá de beldroega se ela foge ou nega
chá de panela para as coisas dela
chá de alecrim se ela for ruim
chá de losna se ela late ou rosna
chá de abacate se ela rosna ou late
chá de sabugueiro para ser ligeiro
chá funcho quando houver caruncho
chá de trepadeira para a noite inteira
chá de boldo se ela pedir soldo
chá de confrei se ela for de lei
chá de macela se não for donzela
chá de alho para um ato falho
chá de bico quando houve fuxico
chá de sumiço quando houver enguiço
chá de estrada se ela for casada
chá de marmelo quando houver duelo
chá de douradinha se ela for gordinha
chá de fedegoso pra mijar gostoso
chá de cadeira para a vez primeira
chá de jalapa quando for no tapa
chá de catuaba quando não se acaba
chá de jurema se exigir poema
chá de hortelã e até amanhã
chá de erva-doce e acabou-se
 
(pelo sim pelo não
                               chá de barbatimão)


Gilberto Mendonça Teles - poeta goiano


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Um funeral

Mais de um ano e o velho naquele morre-não-morre. Há mais de um mês o caixão de alças douradas e forro acetinado branco descansava em pé, acumulando poeira junto à porta de entrada da sala. Arlete, a filha mais velha - ele, pai de sete - a solteirona, a que nunca se casou, a quem cabia a árdua tarefa de alimentar, medicar e limpar os excrementos e secreções do velho, convocou os outros irmãos para a despedida. Era certo que agora ele morria.

A família toda reunida, filhos, genros, noras e netos em torno da cama do velho. Uma nuvem negra parecia pairar sobre o ambiente em meio aos semblantes consternados. O velho, todavia, permanecia imóvel, os olhos esbugalhados, na vã tentativa de decifrar o que acontecia.

Ainda não foi naquela manhã. À noite, porém, prorrompeu numa tosse rouca que lhe roubava o ar. O peito murcho arfava. Sob a magreza do tórax entrevia-se em relevo suas costelas arqueadas, frágeis estruturas capazes de se desfazerem ao menor esforço. Mais uma noite, e o velho sobreviveu.

Acordou cansado, é verdade. Além da parentela, encontrava-se no quarto um padre, a postos para realizar a extrema unção. O padre encomendou uma vela para cada um dos presentes. Dispuseram-se ordenadamente ao redor da cama. Um menino começou a chorar depois que a cera quente lhe queimou o indicador. O velho, mais uma vez, não compreendia nada.

Subitamente, o baú de memórias entreabriu-se. Reconheceu um a um os presentes. Patéticos, achava aquilo tudo um insuportável fastio. Grande maçada me aprontaram esses idiotas. E o padre Monteiro, o que quer ele aqui? Não passa de um urubu gordo e careca, ainda vai visitar e cobrar caro de outras famílias só para dizer meia dúzia de tolices - pensava com certo ar de desprezo, embora sua fisionomia fosse incapaz de expressar qualquer sentimento a não ser aquele ar de quem só existe além da vida.

Sentiu náuseas ao ver um dos garotos expelindo catarro pelo nariz e levando a língua para lambê-lo. Desgostou-se ao ver o quão eram feias e gordas as noras e inúteis e parvos os genros. Que bela família. Fosse um piloto de avião a conduzi-los, apertaria o botão ejetor só para ter o prazer de vê-lo chocar contra o solo, desfazendo-se em partículas carbonizadas, irreconhecíveis para todo o sempre.

O peito começou a chiar. O oxigênio ia ficando rarefeito. Era chegada a hora. Enquanto conduzia a ladainha, padre Monteiro cobriu seu corpo até o pescoço. Posicionou as duas mãos do velho sobre o peito, uma em cima da outra, e entre elas um crucifixo. Num último esforço, o velho fixou seus olhos mortos nos olhos gordos do padre e perguntou:

- É procissão?

O padre ungiu sua testa, fazendo o sinal da cruz.

- Vai à merda então... - disse o velho, em suas últimas palavras.

E no fecho da vida um sino seco, agudo, ensurdecedor e inútil.

* * *

Goiânia, ano de 2004.
 
Glauber Ramos