terça-feira, 6 de outubro de 2015

O mistério da mulher


Certa altura, a poetisa mineira Henriqueta Lisboa definiu de modo sublime que “o mistério da mulher está em cada afirmação ou abstinência, na malícia das plausíveis revelações, no suborno das silenciosas palavras”. Com total razão: mulher é puro encantamento, ser mítico, miragem no deserto da solidão de qualquer homem ou de quem a deseje.

Acerca da geometria das linhas, particularmente me encantam as imperfeições: a barriguinha saliente, coxas e nádegas volumosas travando lutas homéricas com o jeans, as maçãs ressaltadas, pintas aspergidas ao longo da pele... Um conjunto assim, acompanhado de uma personalidade enigmática, e logo sinto tremer o chão sob meus pés.

Nada contra as assíduas frequentadoras de academia. Contudo, é com melancólica tristeza que diviso a moça em frente ao espelho em busca da selfie perfeita. Infindáveis exercícios para alcançar músculos bem definidos, tal qual um lutador de MMA. A cada série concluída, uma postagem nas redes sociais em busca de aprovação do mundo, como se dissesse “ei, não me ignorem, estou fazendo minha parte!”. Me pergunto se há feminilidade nisso tudo. E me preocupo se tantos exercícios também não podem enrijecer a alma dessas mulheres, a ponto de torná-las seres desprovidos de ternura. Que diria você, meu caro Vinicius de Moraes, para quem a mulher tinha que ter qualquer coisa além da beleza? No dia dos namorados, preferem chocolates acompanhados de belas flores e um bilhete romântico, ou uma caixa daquelas famigeradas barrinhas proteicas? Triste dilema, caros mancebos.

Ainda prefiro a moça que não se escusa de dividir comigo uma garrafa de cerveja num sábado de calor, tampouco se furta ao prazer de uma carne suculenta, afinal cerveja e churrasco fazem parte do banquete dos deuses do Olimpo.  Que sabe olhar além das supostas imperfeições refletidas no espelho, e que descobriu que a melhor forma de se caminhar pela vida é pisando leve, com passos lépidos de criança. Que há tempos superou o jogo das aparências, e aprendeu a enxergar no fundo dos olhos de quem a contempla a estética da alma.


Gurupi, 21 set 2015.

sábado, 26 de setembro de 2015

Sombras da alma

Existe lá fora um sol que arde inclemente, como se dissesse, em repúdio a toda forma de escuridão: - Não haverá trevas sobre a terra, senão a luz!

Humildemente discordo do onipotente astro-rei. Trago no espírito minhas sombras, lugares ermos onde residem criaturas fantasmagóricas do passado, que de tempos em tempos assolam meus pensamentos. Os escuros da alma...

Levei um tempo para descobrir que não havia modo de aniquilar as ditas criaturas. Estarão comigo até o fim dos meus dias. Quem sabe resolvam adormecer profundamente, a ponto de esquecer por completo minhas lembranças.

Fato é que inevitavelmente outras criaturas se somarão às já existentes, num processo contínuo que envolve o próprio existir. Isso porque viver é estar exposto a toda sorte de emoções. No grande fluxo da existência, inevitavelmente sofremos os influxos do destino. Podemos acordar alegres, e repentinamente sofrermos o revés de um triste evento. Ou quem sabe, ao despertarmos num dia melancólico, sem qualquer perspectiva, podemos encerrá-lo exultantes e cheios de esperança, tal qual ocorre no exato instante em que a paixão adentra de modo avassalador nossos corações.

No findar destas linhas, sei que algum antigo fantasma estará à minha espreita. Mas não há motivo para temor. Hei de encará-lo no fundo dos seus olhos de gelo. E inevitavelmente estarei diante de um espelho, totalmente despido, observando algum medo que teima em não partir.

* * * 

Gurupi, set 2015.

terça-feira, 22 de setembro de 2015

O homem nu

Virou notícia instantânea: por volta das 12:30 horas desta terça-feira, um homem completamente nu foi visto caminhando tranquilamente pelas imediações do bairro Floresta, em Belo Horizonte.

Não conheço a capital mineira, tampouco o dito bairro, mas em uma pesquisa rápida (menos de um minuto), pude constatar tratar-se de um local onde residem pessoas ordeiras e trabalhadoras em sua esmagadora maioria. Ao que me consta, até mesmo o escritor Carlos Drummond de Andrade lá residiu por alguns anos.

Quanto ao nosso personagem, nada do que foi registrado pelos curiosos seria capaz de desabonar sua reputação, a não ser a insólita situação em que se encontrava em razão da ausência de vestes.

Em dado momento, foi visto fazendo alguns alongamentos, coisa absolutamente normal em se tratando de exercícios físicos altamente recomendáveis, visto que proporcionam maior flexibilidade muscular. Fora isso, nada digno de nota.

Pelo horário, talvez estivesse procurando algum local para almoçar após ter discutido com a esposa, em que pese a remotíssima chance de ser admitido em qualquer estabelecimento em razão da ausência de trajes. Ou ainda, tenha sido apenas um protesto silencioso contra o consumismo desenfreado da nossa sociedade, que hoje paga um alto preço em razão da ingerência que se instalou na administração do país.  

Quiçá estivesse apenas com calor, afinal de contas o aquecimento global está aí, acreditem ou não, e é bem capaz que o nosso personagem esteja apenas antecipando uma tendência, pois é certo que com o aumento gradativo das temperaturas, inevitavelmente seremos obrigados a diminuir a quantidade de peças do nosso vestuário.

Enfim, não sei qual foram os seus motivos, mas o saúdo pela coragem, caro amigo mineiro, pois não há vergonha alguma em sair por aí totalmente despido quando se é um cidadão de bem, cumpridor das suas obrigações. Triste é constatar que em contraposição à sua nudez, homens e mulheres bem trajados, vestindo ternos e sapatos das mais caras grifes, têm feito desta terra uma pátria que nos últimos tempos somente desperta vergonha em seus filhos. 

* * *

Gurupi, 22 set 2015.

Dialogando com Mario Quintana


Mestre Quintana, veja só, aprontaste das suas até mesmo no dia da sua partida.  Não queria saber de barulho no velório, bajulações tardias e sem propósito. Escolheu justamente o famigerado 5 de maio de 1994, dia em que o país, tomado por uma comoção generalizada, despedia-se do piloto Ayrton Senna da Silva.

Mestre Quintana, neste canto do mundo onde diviso apenas solidão e desassossego, os seus cantares me guiam dentro da noite escura. Luzem estrelas luares, vossos quintanares, conforme a suprema sapiência de Manuel Bandeira.

“Quem faz um poema salva um afogado”. Fato incontroverso, caro poeta. Teus versos são boias atiradas ao mar dos desesperados. Inegavelmente carregam um sopro de vida, estes teus versos.

Mestre Quintana, certo dia me ensinaste que um desejo utópico não merece ser desprezado. “Se as coisas são inatingíveis... ora! Não é motivo para não querê-las”.

Me cerco de desejos inatingíveis neste momento, caro mestre. A esperança de um mundo melhor para todas as criaturas. O perfume doce de uma boca de mulher. A liberdade de voar fora da asa. Paz para os espíritos beligerantes, inclusive o meu. Quimeras, amigo poeta.

“O velho Leon Tolstoi fugiu de casa aos oitenta anos/E foi morrer na gare de Astapovo!... Ele fugiu de casa.../Ele fugiu de casa aos oitenta anos de idade.../Não são todos que realizam os velhos sonhos da infância!”. Espero um dia ser velho o bastante, mestre Quintana, e quem sabe realizar os sonhos aos quais não compareci.

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Rio Verde, 10 set 2015.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Naquela manhã cinzenta

Naquela manhã cinzenta me deste um sorriso, e por alguns instantes pude contemplar as cores do paraíso.

Submerso no profundo mar azul dos teus olhos – que também seriam castanhos, ou ainda, tingido de todas as cores do arrebol – permaneci estático, tal qual um busto de bronze exposto às intempéries da ilusão.

Por um fugaz instante experimentei uma paz profunda, quase celestial. E vi passar toda a febre do mundo, como as nuvens de uma tempestade que inesperadamente mudam seu curso.


Num sobressalto, você deu um passo para trás. E mais um. O sorriso contornado pelo batom vermelho se desfez. Virou as costas e partiu, sem adeus. E naquele momento senti-me um tolo, atônito, perdido naquela manhã cinzenta.

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Gurupi, 21 set 2015.

Dança do tempo

A vida parecia dançar em sua cabeça. Os dias uniam-se às noites, e assim, entre os períodos de sono e vigília, se completavam semanas, meses, anos.  

Há mais de dois anos residindo naquela cidade, e mesmo assim sentia-se um completo forasteiro. Já não lembrava mais da sensação de ter raízes em algum lugar. Não possuía um lugar para chamar de seu. Sequer sabia que rumo seguir.

Atônito. Lentamente sentia que o tempo cobrava seu preço. Aos poucos, a juventude esvaía-se do seu corpo. O espírito, todavia, envelhecera bem antes. A intolerância cada vez mais presente o afastava do convívio de outras pessoas. Não suportava frivolidades. A solidão era destino certo.

Chegara até ali sem ter realizado qualquer projeto digno de nota. Amigos se casavam, tinham filhos, casas bem decoradas, enquanto ele discutia com o locador o valor do aluguel do minúsculo apartamento onde habitava. O último, quiçá único, amor – ah, o amor! – que teve viu partir para longe... corações feridos. Talvez nunca mais se vissem, e essa possibilidade realmente o assustava. Estaria casada, com filhos, levando a vida comezinha que ele se negou a lhe proporcionar? O mundo não tolera covardes, meu caro!

Anoiteceu sem que percebesse. E com o cair da noite uma forte chuva após longos meses de estiagem. Aos poucos o ar que respirava perdeu sua aridez. Esperava que o sono lhe trouxesse um sonho bom.

***
Rio Verde, 10 set 2015.

Tirando o pó...

Sei lá por que cargas d'água resolvi voltar a escrever aqui. E coincidência ou não, amanhã se completariam 3 anos da minha ausência neste espaço. Sabe o que isto quer dizer? Absolutamente nada.

Sem maiores delongas, vou exercitar novamente minha pena. Obrigado pela presença, caros amigos leitores!

sábado, 22 de setembro de 2012

O carcará encantado


Numa dessas manhãs nubladas em que a vida se enche de saudosismo, fui tomado pelas memórias do meu tempo como estagiário de direito, em especial aquelas dos dias em que a instituição na qual servia entrou em greve. Na ocasião, por determinação da chefia superior, ao menos um dos estagiários deveria ficar de plantão em cada turno, a fim de atender algum caso urgente que viesse a aparecer.

Dentre as pessoas que laboravam na repartição, guardo ainda viva a lembrança da faxineira que diariamente limpava o lugar, de nome Andréia, que a todos cativava com seu jeito simples e espontâneo. Não me recordo, porém, se ela alguma vez chegou a pronunciar meu nome, pois usualmente tratava a todos pelo epíteto “irmão”.

O fato é que a “irmã” Andréia estava grávida; a barriga proeminente denunciava que o parto estava próximo. Em algumas ocasiões a surpreendi fumando no estacionamento. Chamava sua atenção, explicando que o cigarro era prejudicial a ela e ao bebê. “Vou fumar só esse por hoje, irmão” – displicentemente respondia.

Em um dia modorrento, onde o tempo se arrastava com a velocidade de um velho caramujo, a “irmã” adentrou a minha sala, encontrando-me diante do computador ouvindo uma rádio virtual. Pelos alto-falantes saía o memorável show Opinião, estrelado por Nara Leão, Zé Kéti e João do Vale. Ali, naquelas vozes, vários “Brasis” se encontravam: a classe média carioca, representada pela bossa nova de Nara Leão; o morro e suas súplicas, suas alegrias e tristezas, cantadas por um dos seus intérpretes maiores, Zé Keti; e o Brasil "de dentro", da caatinga e de todos os sertões afins, representado pelo lirismo sertanejo do inesquecível João do Vale.

Mas eram as letras e a história de vida do maranhense João do Vale que me levavam a um outro lugar, certamente alguma gleba perdida na infância. Igualmente maranhense, só que pela linhagem paterna, para mim seria impossível não encontrar nele laços de identidade. Em 1996, quando da sua morte, foi noticiado o falecimento do autor de “Carcará”, música imortalizada na voz de Maria Bethânia. Menino analfabeto de Pedreiras, interior do Maranhão, fugiu de casa para tentar a sorte no Rio de Janeiro. Mesmo tendo sido gravado por nomes como Edu Lobo, Fagner, Tim Maia, Zé Ramalho, Chico Buarque, Tom Jobim, Miúcha, Paulinho da Viola, entre tantos outros, João do Vale foi relegado à vala comum do esquecimento. 

Sobre a “irmã” que naquela ocasião me espreitava curiosa... perguntei a ela se já tinha ouvido falar naquele nome, João do Vale. Sem alarde, para meu espanto ela respondeu: “Ele era meu tio, irmão”. Quis saber então onde ela tinha nascido. “Eu nasci em Pedreiras, lá no Maranhão”. Fiz outras perguntas, e as respostas condiziam fielmente com a biografia dele. Andréia então me relatou que João do Vale era irmão de sua avó materna. Ela mesma o vira algumas vezes, quando criança. E disse-me que João era um homem simples, tendo como fraqueza maior a cachaça. Contou ainda sobre o retorno dele a Pedreiras, em definitivo, já vitimado por um derrame. E falou-me da praça que leva o seu nome, e do seu local de nascimento, Lago da Onça, zona rural daquele município.

Nunca mais tive notícias de Andréia, mas espero que ela tenha largado o cigarro. Sobre João do Vale, ainda acredito que ele e sua obra serão imortalizados. Afinal, como certa vez escreveu outro João, de sobrenome Guimarães Rosa, “O mundo é mágico. As pessoas não morrem, ficam encantadas”.

* * *

Goiânia, 30 de agosto de 2009.